Aposto um dinheirinho que você também tem a imagem de um bebê começando a caminhar segurando o dedo ou a mão de um adulto. Muitos de nós crescemos assim. Inclusive nos enche de ternura, ver uma mãe ou um avô segurando as duas mãozinhas do bebê.
Maasss, pasmem … Nenhuma criança com desenvolvimento saudável precisa da mão para caminhar. Pode ser que estenda a mão para o adulto, como forma de comunicação mesmo. A gente pode chegar bem pertinho, conversar, entender qual a necessidade (se for preciso, daremos colo), mas por que dar a mão e fazer essa criança caminhar?
Essa necessidade vem da nossa cabeça de adulto, não do movimento da criança.
“Ah! Mas ela gosta!” Talvez ela goste de compartilhar um bom momento com esse adulto, goste da troca de olhares, de ver essa alegria que nos dá vê-la em movimento. Será que não temos outras formas e oportunidades de compartilhar isso?
A criança que não caminha por si só, mas que é “caminhada”, sente seu desequilíbrio, seu descontrole, a falta de domínio desse corpo “que está passeando”.
A criança que dá seus primeiros passos sozinha (que costuma ser um deslocamento lateral, apoiado em móveis, antes de ser para frente e sem as mãos) vai no seu ritmo, no seu próprio passo. Desde sua vontade e seu querer, ela realiza essa ação. Poderá sentir como todo seu corpo se move, a partir da sua vontade, encontra sua agilidade, seu equilíbrio próprio.
Não se caminha de fora pra dentro, pendurado por suas mãozinhas e arrastando as pontinhas dos pés. “Ensinar” a andar coloca esse corpo em tensão, se perde a firmeza dos pés para experimentar o equilíbrio, a decisão de para qual lado ir, a agilidade para amparar quedas.
Que experiência fica gravada nesse corpo? Esforço, tensão, dependência. Limita as possibilidades dos primeiros passos. Passos que começam a transitar o espaço de forma diferente, já com uma separação significativa do adulto.
No olhar do adulto, a criança deve sentir segurança e confiança em suas capacidades, em sua vontade e no seu tempo. E tem muita presença nesta atitude discreta.
Caminhar é uma conquista e vai muito além do desenvolvimento motor ou o “ir daqui até ali”.